Órgão de grafia

Publicações digitais independentes

O dispositivo

Sentado no sofá, na sala escura, o rosto iluminado pela luz azul do pequeno dispositivo. Recentemente, decidira navegar apenas à noite, depois de todos os afazeres. Várias vezes ao dia, envolvia-se num debate silencioso, breve mas tenso, consigo mesmo. Mudar um hábito nunca é fácil. Passava muitas horas sozinho e a solidão já o empurrara para lugares aos quais não queria voltar (a fragilidade humana no seu máximo expoente). Sentia falta da informação passada através do olhar. No comboio, via-se rodeado de olhares fechados em dispositivos, sentindo-se triste e, também ele, tentado. Não sabia porque sentia tanto a falta dos seus semelhantes se, a maior parte das vezes, eram tão falhos quanto ele. Concentrava-se no movimento da paisagem, enquanto a mente divagava, agarrando para si os detalhes que o cativavam. Quando algum pormenor lhe escapava, dedicava-se a imaginar os seus contornos. As pequenas interacções aconteciam, sobretudo, quando fazia compras. O diálogo, nalguns sítios, era seco e previsível: Tem cartão? Quer saco? Número de contribuinte?, mas no fim desejavam um bom dia e ele sorria e desejava o mesmo de volta (mesmo que os olhares não se chegassem a cruzar). Antes de se reformar, gerira uma loja de fotografia. Oferecera com brio um serviço minoritário de bens não essenciais. A variedade não era o ponto forte do seu negócio, mas sim o atendimento e a qualidade dos produtos; alguns eram repostos de dois em dois ou de quatro em quatro, para assegurar que não ultrapassavam a data de validade. Sempre que necessário, saltava de trás do balcão, abandonando tudo o que houvesse para fazer, para abrir a porta, facilitando a passagem com um gesto. Houve uma época em que adquirira relíquias para vender e, mesmo nessa altura, conhecia as suas prioridades: afeiçoava-se às pessoas, não às câmaras. Era assim numa cidade pequena, talvez fosse diferente na capital.

Recebeu uma notificação assim que se conectou. Uma notícia que já devia ter chegado aos olhos ou ouvidos de quase toda a gente. Um homem morrera inesperadamente na noite anterior e o seu corpo fora encontrado ao longo da tarde. O algoritmo devia saber que tinha por hábito informar-se de óbitos, pesquisando detalhes, como causa da morte, idade e local. Era a obsessão de quem percebe estar mais próximo do fim do que do início; era como se, ao fazê-lo, averiguasse algo sobre a sua própria morte. Mas o que realmente lhe chamou a atenção na notícia, o detalhe que o prendeu, foi o intervalo de tempo passado entre a morte e o corpo ser encontrado. Parecia-lhe que havia algo de intrinsecamente íntimo nesse hiato, como uma espécie de epifania póstuma na relação consigo mesmo. Se alguém entrasse agora em sua casa, encontraria pistas de vida: a comida ainda morna no frigorífico, o talão da compra da manhã em cima da mesa, o cheiro do sabão que ainda desprendia do duche. Teriam encontrado em casa do morto alguma pista que anunciasse a sua morte? Ou teria morrido junto à porta de entrada, na tentativa falhada não de entrar, mas de escapar do que lhe estava a acontecer?

Apagou o ecrã e fechou os olhos. Ultimamente estava mais sensível à luz do dispositivo. Notava o cansaço, mas não queria adormecer. Ainda não. Com a noite vinha a inquietação. Estava a aprender a serenar o coração. Sem saber porquê, pensou no dia em que vira, desde a janela do comboio, a bengala esquecida junto ao banco da estação. O revisor acalmara-o, assegurando-o que iria buscá-la, mas a verdade é que o comboio arrancara e a sua bengala ficara lá, desamparada. Com a idade aprendera a relativizar os conflitos. Só desejava que tivesse sido útil a alguém. Não era tão velho como para precisar de usar bengala, a doença é que ditara esta semi dependência. Nessa época, fizera o luto sozinho, sem acompanhamento profissional. O luto é uma perda que abala alicerces e mexe com sistemas pessoais e familiares. Sem ajuda, desabar é, mais cedo ou mais tarde, o cenário mais provável. Nunca tinha pensado no seu nome próprio como potencial de destruição e morte, até que uma grande tempestade atingira uma cidade vizinha no inverno anterior. Durante e após, homens caíam como peças de tabuleiro. Feio! Arrepiava-se ainda hoje só de pensar. Nestas circunstâncias, luto e reconstrução iam lado a lado, sem um não era possível o outro e ambos eram necessários para a sobrevivência.

Ainda de olhos fechados, sentiu saudades dos filhos e lembrou-se de quando quase estragara tudo. Aquele poema salvara-o. Sim, a paciência tudo alcança. Graças ao impacto que o poema tivera nele, era próximo dos filhos hoje em dia, apesar da distância. O seu pensamento voltou ao morto. Como seria a sua família? A família de sangue, a família que não era de sangue mas que os pais escolhiam (e é tão ou mais importante) e a família que cada um encontrava ao longo da vida. Cada pessoa desempenhava vários papéis que aprendia a ocupar e oitenta anos raramente eram suficientes para os decifrar em profundidade. Tudo bem. O mais importante era não guardar a vida para depois.

Deixou-se ficar no estado entre a vigília e o sono, até voltar a ligar o ecrã azul, num gesto quase automático. Como de costume, tinha o modo silencioso activado e não ouvira a chamada da filha mais nova. Como não tinha atendido, ela deixara uma mensagem a perguntar como estava e a avisar que dentro de pouco ia entrar no teatro e não poderia falar. Sentira-se, muitas vezes, inadequado em diferentes contextos sociais. Fora assim desde que se lembrava, diziam-lhe que era diferente, estranho, esquisito, incomum, calado; não faltavam adjectivos. Familiares, ao ver o seu desconforto de criança perante certas situações, diziam-lhe: Se um dia não souberes o que dizer, fala da nortada e dos barcos que avançam. Se um dia não souberes o que dizer, traz à baila aquelas coisas que explicas a ti mesmo quando falas sozinho. Se um dia não souberes o que dizer, faz perguntas, muitas perguntas. Se um dia não souberes o que dizer, olha à tua volta, está sempre alguma coisa a acontecer. Se um dia não souberes o que dizer, sorri do teu mau jeito. Se um dia não souberes o que dizer, respira e diz a ti mesmo que amanhã vai ser diferente. Se um dia não souberes o que dizer, não quer dizer que não tenhas nada para dizer. Se um dia não souberes mesmo o que dizer, não te preocupes. Será que ficaria definitivamente sem palavras perante a morte? Respondeu que estava bem, que amanhã falavam. Mas será que estava mesmo bem? Algo naquela notícia o deslocara. Sim, sentia-se deslocado de si, como se todos os seus átomos se tivessem projectado para aquele lugar, para o momento da morte, do intervalo e da revelação.

Voltou a si. E se lhe acontecesse a ele? Quanto tempo passaria até que o encontrassem? Quanto tempo teria consigo mesmo depois da morte, antes de todas os choros, de todas as burocracias? Talvez após várias chamadas não atendidas, alguém interpretasse o silêncio do outro lado da linha, ou pelo menos decidisse ir verificar. Se passasse demasiado tempo seria triste, sentir-se-ia invisível. O pior de caminhar mais lento era quando chovia, ficava mais exposto à água e nem sempre se lembrava de levar o impermeável. Andar com guarda chuva estava completamente fora de questão. A única vantagem parecia ser a empatia dos automobilistas, que aguardavam mais pacientes junto à passadeira. Felizmente, conseguia chegar a todo o lado mesmo sem conduzir. Durante a sua vida, procurara não ter por vizinho o medo; por isso, quando a doença o atacara — era assim que via a intromissão desta na sua vida —, confiara que tudo ia correr pelo melhor, mesmo quando tudo parecia correr mal. O medo são os pulmões vazios, por isso é importante trepar às árvores, correr nos campos e abanar os pensamentos. Quando os pulmões se enchem, o corpo desprende a sua própria sabedoria e o fluxo da vida é gentil.

Sentindo-se subitamente animado, pôs uma música a tocar no dispositivo. A música enchia-o de esperança, utopia e horizonte. Por vezes pensava: Se sabia o que gostava de ouvir, porque não era capaz de inventar uma melodia? Da mesma forma que, se sabia o que gostava de ler, porque não era capaz de escrever um poema daqueles que salvam? Era uma sorte encontrar quem o fizesse por nós e, às vezes, parecia até, para nós. Este tipo de encontro com o outro era também um dos momentos de grande intimidade. Nunca fora preguiçoso, arranjara sempre forças para procurar (e quando encontrava Ah! que alegria imensa). Lembrava-se vagamente de uma história que tentara escrever, a história de um médico do norte que pedalava em tandem com a morte. Falava de como, quando o pedalar era leve, não havia pressa e se podia desfrutar da paisagem. Quando o médico pedalava com a morte, até as subidas mais íngremes eram leves como flocos suspensos em queda lenta. Escrevera sobre os seus domicílios que o esperavam, onde a paisagem alternava entre caminhos sinuosos e estreitos e o horizonte a perder de vista. Na história, quando a morte se ausentava, tudo se complicava. O médico iniciava uma corrida contra relógio, o pedalar deixava de ser leve e era urgente avançar. Nunca sabia o que o esperava ao chegar. Às vezes era falso alarme, a morte batera a outra porta. Outras, chegava a tempo das últimas despedidas ou de passar a certidão de óbito. Quando o paciente era mais velho, diziam: «Já tinha uma idade, agora pode descansar»; mas, quando era mais novo, diziam: «Em tão tenra idade, foi antes do tempo.» O médico não sabia quem definia a hora e porquê, o única coisa que podia fazer era continuar a pedalar, até que a morte voltasse a aparecer. Neste momento havia um giro porque, quando esta voltava, o médico não sabia logo qual o significado da sua aparição; talvez fosse sinal de um dia bom, ou talvez significasse que tinha chegado a sua hora. Ou os dois, já que o médico escolhia pensar no dia da sua morte como um dia bom. Um dia para partir com a mesma dignidade com que vivera. Era assim que também ele gostaria de partir um dia (e, talvez por isso, um dia tenha imaginado esta história).

O tempo corre que voa, quando olhou para o relógio percebeu que já era tarde. Parou a música, apagou a luz do ecrã e começou a retirar-se para o quarto. Mas não sem antes lhe dedicar o último pensamento da noite, como costumava fazer. A sua partida fora o golpe mais baixo e instalara um luto maior do que o da doença. Nunca esqueceria a forma como o abraçara, no último aniversário que passaram juntos antes da sua morte, e lhe agradecera por fazer anos. Nesse abraço ainda podia ouvir: «Obrigada por ficares e cuidares de mim.» (mas eras tu que cuidavas de mim enquanto te cuidava). Continuava a fazer-lhe falta. Conheceram-se tarde na vida, mas quem decide quando é a hora de quê? Em silêncio, subiu lentamente os degraus, um a um, sentindo-se leve e visto.

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